quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Colecionadora de pessoas


Sabe, quando chegamos a certa altura de nossas vidas e começamos e refletir sobre o passado, mais especificamente sobre as pessoas que passaram por nossa vida e que nos deixaram alguma marca, tendo estas pessoas permanecido ou não?
Pois é, ultimamente tenho pensado tanto nisto que cheguei a algumas conclusões e mais interessante é que me tornei uma colecionadora de pessoas. O título pode até parecer um pouco estranho e até causar certo assombro, mas é isto mesmo, Colecionadora De Pessoas.
Já lhes explico como cheguei a este conceito. Caminhando pelas ruas de Belo Horizonte, no centro para ser mais específica quando reconheci um rosto há muito não visto, nem era de alguém que eu poderia chamar de amigo, mas um rosto conhecido afinal pelo tempo de convivência no colégio e várias lembranças relativas a esta pessoa começaram a desfilar em minha cabeça muito rapidamente como um rolo de filme acelerado, desacelerando ou pausando em certas ocasiões.
Admito que a maioria ou quase todas as lembranças que envolviam aquela pessoa não eram das mais agradáveis, pois eu era na maior parte do tempo, o alvo das chacotas e das cruéis brincadeiras juvenis praticadas por ela e que me deixavam constrangida e magoada, mas os anos se passaram e em pouco tempo não tive mais notícias deste personagem que desempenhou seu papel naquele episódio da minha vida.
Continuei minha caminhada em sua direção e ela em direção a mim com um olhar fixo que dizia uma a outra “Ei, lembra-se de mim? Eu me lembro de você!”, mas sem muito entusiasmo, até com um pouco de receio eu diria. E na lastimável e consumidora correria da vida moderna, nos cruzamos enfim, com um sorriso meio sem jeito nos lábios e num tímido aceno com a cabeça nossos olhares se desconectaram e seguimos com nosso percurso.
Apesar das memórias não muito felizes a respeito dessa importante coadjuvante neste capítulo da minha história, percebia que não havia rancor ou qualquer outro sentimento negativo, havia sim um pouco de nostalgia temperada com um “Quem diria? Ela parece estar muito bem e sinto-me contente com isso”, pensamento no mínimo surpreendente e que deu certo alivio.
Este sentimento, embora relativo, é bastante diferente daquele que se têm quando se encontra um amigo que, mesmo com anos ou léguas de separação, a conexão não se fragilizou e quando nos deparamos com estes “encontros casuais” tudo aquilo que foi compartilhado se derrama calorosamente em nossos corações e vamos em direção um do outro e nos abraçamos com um sorriso emocionado querendo invadir o peito do outro com alegria que sentimos por encontrar tão amado amigo e ficamos ansiosos por atualizar tudo quanto aos últimos acontecimentos de nossas vidas e que infelizmente este companheiro não estava lá para testemunhar.
E durante o nosso regresso as momentos em estivemos juntos, memórias de outros personagens igualmente interessantes vão surgindo aquecendo ainda mais nossos corações e na cabeça de cada um, o que cada uma dessas pessoas trouxe e deixou mesmo aquela para quem só se acena com a cabeça quando se cruza com ela pelas ruas.
Para cada momento marcante em minha vida, houve também uma ou duas pessoas que fizeram parte disto.
Aquele ombro inesperado que me acolheu em momentos difíceis, sem jamais  menosprezar o ombro esperado, por que do esperado não havia surpresa quanto a ele estar do meu lado e pelo qual serei grata e estarei em dívida, mas marcante mesmo foi aquele me surpreendeu.
Aquele com quem eu sorri, ri e ri alto de coisas idiotas que provavelmente só nós entendíamos e dos planos ridículos que idealizamos e dizíamos que cumpriríamos juntos. Aquele que viu minhas lágrimas mesmo quando eu não as derramei e ainda assim conseguiu enxugá-las. Aquele para cujos braços eu corri quando tive meu coração partido. Aqueles que me magoaram superficial ou profundamente.
Com todos estes eu aprendi alguma coisa, que somados no final me ajudaram a evoluir em moralidade e compreensão das limitações e dificuldades de cada um, de mim mesma. Todos desempenharam e desempenham seu papel e deram sua contribuição grande ou pequena para a peça da minha vida.
Dito desta forma pode soar um tanto quanto narcisista, mas da minha vida eu decidi ser o astro principal e sem dúvida nenhuma nesta grande peça, só posso ser a estrela se eu tiver coadjuvantes que tirem de mim o melhor ou o pior que eu possa ser e dar para que minha história tenha sua singularidade e significado.
E por isso aqui eu digo que sou colecionadora de pessoas, por que com a ajuda consciente ou inconsciente, direta ou indireta de todos com quem encontrei pelo caminho eu evoluí suficientemente para saber que ainda há muito para caminhar, para melhorar. Cada um teve e tem seu lugar de destaque nesta galeria, cada um com sua participação em minha história e sua memória sempre terão alguma significância para a construção do meu personagem.
Estou almejante por aumentar minha coleção. 


Um texto de Carmem Severo colaboradora do SH

Um comentário:

Copyright © 2014 Nossa Historia Sua Historia