Colecionadora de pessoas
Sabe, quando chegamos a certa altura de nossas vidas e começamos e refletir sobre o passado, mais especificamente sobre as pessoas que passaram por nossa vida e que nos deixaram alguma marca, tendo estas pessoas permanecido ou não?
Pois é, ultimamente tenho pensado
tanto nisto que cheguei a algumas conclusões e mais interessante é que me
tornei uma colecionadora de pessoas. O título pode até parecer um pouco
estranho e até causar certo assombro, mas é isto mesmo, Colecionadora De Pessoas.
Já lhes explico como cheguei a
este conceito. Caminhando pelas ruas de Belo Horizonte, no centro para ser mais
específica quando reconheci um rosto há muito não visto, nem era de alguém que
eu poderia chamar de amigo, mas um rosto conhecido afinal pelo tempo de
convivência no colégio e várias lembranças relativas a esta pessoa começaram a
desfilar em minha cabeça muito rapidamente como um rolo de filme acelerado,
desacelerando ou pausando em certas ocasiões.
Admito que a maioria ou quase
todas as lembranças que envolviam aquela pessoa não eram das mais agradáveis,
pois eu era na maior parte do tempo, o alvo das chacotas e das cruéis
brincadeiras juvenis praticadas por ela e que me deixavam constrangida e
magoada, mas os anos se passaram e em pouco tempo não tive mais notícias deste
personagem que desempenhou seu papel naquele episódio da minha vida.
Continuei minha caminhada em sua
direção e ela em direção a mim com um olhar fixo que dizia uma a outra “Ei,
lembra-se de mim? Eu me lembro de você!”, mas sem muito entusiasmo, até com um
pouco de receio eu diria. E na lastimável e consumidora correria da vida
moderna, nos cruzamos enfim, com um sorriso meio sem jeito nos lábios e num
tímido aceno com a cabeça nossos olhares se desconectaram e seguimos com nosso
percurso.
Apesar das memórias não muito
felizes a respeito dessa importante coadjuvante neste capítulo da minha
história, percebia que não havia rancor ou qualquer outro sentimento negativo,
havia sim um pouco de nostalgia temperada com um “Quem diria? Ela parece estar
muito bem e sinto-me contente com isso”, pensamento no mínimo surpreendente e
que deu certo alivio.
Este sentimento, embora relativo,
é bastante diferente daquele que se têm quando se encontra um amigo que, mesmo
com anos ou léguas de separação, a conexão não se fragilizou e quando nos
deparamos com estes “encontros casuais” tudo aquilo que foi compartilhado se
derrama calorosamente em nossos corações e vamos em direção um do outro e nos
abraçamos com um sorriso emocionado querendo invadir o peito do outro com
alegria que sentimos por encontrar tão amado amigo e ficamos ansiosos por
atualizar tudo quanto aos últimos acontecimentos de nossas vidas e que
infelizmente este companheiro não estava lá para testemunhar.
E durante o nosso
regresso as momentos em estivemos juntos, memórias de outros personagens
igualmente interessantes vão surgindo aquecendo ainda mais nossos corações e na
cabeça de cada um, o que cada uma dessas pessoas trouxe e deixou mesmo
aquela para quem só se acena com a cabeça quando se cruza com ela pelas ruas.
Para cada momento marcante em
minha vida, houve também uma ou duas pessoas que fizeram parte disto.
Aquele ombro inesperado que me
acolheu em momentos difíceis, sem jamais
menosprezar o ombro esperado, por que do esperado não havia surpresa
quanto a ele estar do meu lado e pelo qual serei grata e estarei em dívida, mas
marcante mesmo foi aquele me surpreendeu.
Aquele com quem eu sorri, ri e ri
alto de coisas idiotas que provavelmente só nós entendíamos e dos planos ridículos
que idealizamos e dizíamos que cumpriríamos juntos. Aquele que viu minhas
lágrimas mesmo quando eu não as derramei e ainda assim conseguiu enxugá-las.
Aquele para cujos braços eu corri quando tive meu coração partido. Aqueles que
me magoaram superficial ou profundamente.
Com todos estes eu aprendi alguma
coisa, que somados no final me ajudaram a evoluir em moralidade e compreensão
das limitações e dificuldades de cada um, de mim mesma. Todos desempenharam e
desempenham seu papel e deram sua contribuição grande ou pequena para a peça da
minha vida.
Dito desta forma pode soar um
tanto quanto narcisista, mas da minha vida eu decidi ser o astro principal e sem
dúvida nenhuma nesta grande peça, só posso ser a estrela se eu tiver
coadjuvantes que tirem de mim o melhor ou o pior que eu possa ser e dar para
que minha história tenha sua singularidade e significado.
E por isso aqui eu digo que sou
colecionadora de pessoas, por que com a ajuda consciente ou inconsciente,
direta ou indireta de todos com quem encontrei pelo caminho eu evoluí
suficientemente para saber que ainda há muito para caminhar, para melhorar.
Cada um teve e tem seu lugar de destaque nesta galeria, cada um com sua
participação em minha história e sua memória sempre terão alguma significância
para a construção do meu personagem.
Um texto de Carmem Severo colaboradora do SH
Muito interessante o ponto de vista.
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